Hoje todos são nerds
Essa semana usei o transporte público. Tão enigmático quanto detestável. Os ônibus estão melhores que outrora, mas a ausência de placas indicando o itinerário, mais a mania de nos jogarem no meio do nada (com exceção da Paulista), forçando-nos a andar por calçadas estrupiadas, continua ultrajando qualquer bom humor. Sempre que me arrisco no ônibus, salto a léguas do meu intento. Compreensível que todos queiram carro, mesmo que em 800 prestações.
Às vezes, o busão é inevitável
Duas moçoilas no banco detrás enfiavam palavras no meu ouvido, numa daquelas conversas que nunca acabam. Eu já remoia o passado; dos dias que o ônibus era minha única alternativa locomotiva. Mas o que diziam me levaram a remoer mais, e mais importante.
Falavam sobre entretenimento, em geral, e cinema, em particular. Falavam em ver o novo filme do Lanterna Verde. Duas jovens, desfilando vocabulário de call center, falavam do Lanterna Verde. Me impressionei que conhecessem um bastião da cultura nerd. É que eu sou fora de moda. Esqueço, vez por outra, que hoje em dia, qualquer um pode conhecer quase tudo, a despeito do sexo ou classe social. Esqueço, ou talvez prefira não lembrar, que todo mundo virou nerd.
Mas nem sempre foi assim
No passado, eu e mais uns outros tínhamos que manter o amor pelos quadrinhos em segredo, para não sermos esbordoados, verbal ou socialmente. Eu não trabalhava e, embora fosse à escola todos os dias, não estudava. Ia porque forçado. E também para dar trabalho aos carcereiros. Em restrospecto, a culpada foi a mãe, claro, pois mandou o pai embora por ter feito fora do urinol. Mas a angústia tinha outras fontes. Uma delas, a mais partilhada com camaradas nerds, era fruto da marginalização ginasial por conta da incompetência com bola e mulherada. Logo, nos refugiávamos em quadrinho, música e videogame, habitando nosso submundo (o underground), no qual havia compreensão e o sentimento de fazer parte de algo. Coisa de clube.
Eu,contudo, conseguia escapar do esteriótipo me misturando aos populares, me valendo da irreverência e do talento para o desenho. Outros tantos amigos queridos, sem a mesma sorte, sucumbiam às masmorras sociais.
Mas o oba oba da superfície nunca me preencheu. Sempre preferi ler um livro a badalar. Badalei, porque a maior parte da vida no Brasil se apoia nisso, mas sempre fui nerd. Hoje o sou mais que nunca e com orgulho. Ninguém acredita, porque uso cabelos e calçados descolados ( e imagem é tudo ). Mas, insisto, sou nerd até o osso. Aos incrédulos, olhem só o resultado das minha últimas pesquisas no Google:
O histórico de minha últimas pesquisas. ” Ele é nerd ou não é, Silvio ??? “
O que é um nerd afinal
À grande maioria, o termo nerd está ligado a inapetência social ou à moda, e óculos fundos de garrafa. Para mim, a denifinção suprema implica em devoção. Não raro, obsessão. Seja por quadrinhos, videogame ou o Curíntia. Quando o objeto é história, política, tecnologia ou algo considerado relevante pelo leitor médio da Veja, tem-se o nerd como inteligente. Acho um erro. Há tantos nerds burros quanto não nerds. Informação não é inteligência. Sua aplicação prática, talvez.
Perrengues a parte, nerds sempre foram muito orgulhosos de sua condição. Primeiro por saberem o que poucos sabiam. Hoje menos, porque graças ao Santo Google, todos sabem os episódios, nomes de atores, curiosidades e afins de seus programas favoritos. Há vinte anos, isolados no Brasil sob imposição da reserva de mercado dos militares, pré abertura de mercado do Collor, chegava quase nada por aqui. Só os obstinados obtinham informação. Éramos nós. O resto acostumara-se com a Rede Globo como fonte, migrando de moda em moda. Gente “Embalo”, os dizíamos.
Fora do Brasil, praticar a nerdice era igualmente difícil, mas as recompensas muito mais apetitosas. Por lá, os devoradores de cultura nerd de outrora se transformaram nos senhores do entretenimento de hoje. Os fanáticos por computador, em multimilionários.
Já eu, tenho um blog.
Mas em adolescente ainda, capitalizei, pois os novos discos e filmes garimpados com tanto esmero, quando apresentados aos habitantes da superficie, causavam furor. No colégio, lembro de vender fitas cassetes de bandas que só estourariam na rádio meses, às vezes anos mais tarde. Quem geralmente comprava eram os playboys. E eu gastava tudo em gibis. Pensando bem, chega a ser um final feliz.
Do cú ao cool
O muro entre o underground e a cultura pop amplamente conhecida ( mainstream ) manteve sua integridade até 1988, quando o Guns ‘n’ Roses deferiu-lhe o primeiro golpe. A ira masculina, apresentando-se em forma de heavy metal dos infernos, sempre fora relegado ao underground. Mas o rebolado e rostinho bonito de Axl ( imagem é tudo ) se encarregou de adicionar a fórmula necessária para seduzir as garotas, e outros que até então haviam se mantido à parte do mundo nerd.
Com o muro rachado, veio a enxurrada que o derrubou de vez, em forma de Nirvana, Pearl Jam, e outras bandas, devidamente embaladas sob o críptico rótulo de “grunge”. E assim, pouco a pouco nossa vida subterrânea, a la Morlocks, foi se tornando menos exclusiva. A superficie nos descobrira, e a nerdice musical se tornou um pouco mais impraticável. O underground começara a tomar o mainstream. A cisão, de pouco em pouco, deixava de existir.
Os nerds no controle
Em Os Incríveis, o vilão Syndrome tem um plano para acabar com os heróis: desenvolver armas e artefatos e comercializá-los a preços módicos, permitindo que qualquer um que quisesse, pudesse se transformar em herói. E quando isso acontecesse, quando todos fossem heróis… ninguém mais o seria. Foi o que aconteceu conosco.
Quando todos forem nerds, ninguém mais o será
Antes, o Alf da hora do almoço do domingo, terminava quando acabava. Mais, só na semana seguinte. Não haveria reprises, nem DVDs. Agora, é possível baixar uma década inteira de grunge em um dia. No Itunes, todo o acervo de um estúdio está a um clique de distancia.
O Senhor dos Anéis, um livro só nosso, viria a se transformar em filme, e o elenco todo subiria no palco para receber Oscars. OSCARS. Se alguém, em 1988, dizesse que isso aconteceria um dia, seria posto num depósito de birutas. Também seria considerado insânia,sugerir em piada sequer, que o gênero “ fantasia” pudesse vir a se tornar familiar a ponto que um livro como Harry Potter pudesse vir a se transformar no maior fenômeno cinematográfico de todos os tempos.
Enfim… o plano de tomada de poder de Syndrome deu certo. Bill Gates, Steve Jobs, roteiristas, artistas e os magos do mercado possibilitaram que qualquer um com o mínimo de vontade, se tornasse um músico, um fotógrafo, um ilustrador. Que qalquer preguiçoso, se tornasse uma sumidade sobre algum assunto, porque tudo está a, no máximo, dois cliques de distância.
O fim do romance
E se Leia, e não Luke, tivesse se tornado um Jedi na saga Star Wars? O que aconteceu depois que acharam o jornal do Rorsharch em Watchmen? Antes tínhamos que criar na própria mente respostas para perguntas e alternativas. Hoje, existem extras, cenas deletadas, dicussões em fóruns, blogs oficiais ou não, em suma, uma quantidade imensa de (des)informação na qual é possível chafurdar. E o novo filme baseado nos quadrinhos vair gerar uma série de animação cujo diretor contribuiu com o roteiro do filme será diistribuído através de tv a cabo e Netflix e Xbox e Playstation e Twitter e Ipad, Ipod, Ipud. Tudo o que sempre existiu está disponível a qualquer hora e para sempre.
Eu só queria poder evitar a fadiga
Difícil desejar a volta do modelo de outrora. Tentar saber de qualquer coisa dava um trabalho dos infernos. Passei anos achando que Hanna Barbera fosse uma mulher. Mas o lado bom é que havia novidades. Hoje, edita-se o Iluminado em comédia, cenas de Matrix são remontadas e viram um musical. Imagens de Curtindo a Vida Adoidado viram um trailer de filme cult, e os filmes de maior orçamento de Roliúde são recauchutagens de ideias tidas há trinta, quarenta, cinquenta anos.
Toda essa informação está criando nerds mais fracos. E artistas mais consumidores que artistas. É sobre como se consome. Não necessariamente o quê. Foi minha impressão sobre a menina do busão. Ela queria é ver o FILME do Lanterna Verde. Difícil imaginar que estaria disposta a se calar por dois minutos para aprender algo sobre Bill Finger, Dennis o’Neil e Neal Adams, os verdadeiros criadores do personagem.
Juro que deu vontade de deixar de gostar do Lanterna. Claro que é um caso de represália do amante traído. Claro que é ciúme e claro que é infantil. Mas até aí, qual ciúme não é?
Vida Longa e Próspera
L
Trilha sonora sugerida: Rick Astley vs Nirvana :
8 comentários para "A Vingança dos Nerds"
Vida longa e próspera aos que perseveraram, e hoje vêem seus detratores lendo gibís antigos, comprados pelo olho da cara, chamando-os de “cult”.
Às vezes, aquela parada do quem ri por último, cai como uma luva. Com garras de adamantium, diz aí…
Queria deixar um comentário bem bacana, desses que a gente costuma ver em blogs gringos, com reflexões profundas e coerentes,referências e citações interessantes, que ampliam e enriquecem a discussão, superando às vezes até o post em si. Mas não adianta, não sou uma nerd. Não fui picada nem mesmo pela recente revolução no acesso às informações. Espero que isso sirva para abrandar seus ciúmes, que sim, é um sentimento que tem suas origens na infância, mas nem por isso é infantil (no sentido pejorativo que as pessoas insistem em adotar). Adorei o post!
Esse me pareceu um um comentário bem bacana.
Você pode não ser nerd, mas com certeza os admira, não? Senão, não estaria aqui.
Mas fique só por aqui, sim? Se sair por aí admirando outros blogs nerds, terei sentimentos infantis. E no sentido pejorativo que as pessoas insistem em adotar
Ah! A propósito: que delícia relembrar que chamavámos o pessoal maria-vai-com-as-outras, de “embalo” – rsrs!
Viva os mutantes!
Sempre.
Prezado Sr. Lovric,
Porra, pensei tantas coisas e dei boas risadas com esse post. A mais longa e gostosa foi com o seu histórico do google. Ainda bem que você é casado. E bem casado. Eu jamais poderia postar tal coisa no meu blog. Daria vergonha até nas devotas carmesitas. Enfim, mas passemos…
Vou comentar em tópicos, o banco central infelizmente me faz metódico. Sobre busões: não tive coragem de encarar um busão aqui no DF. E não estou com vontade de tê-la. No metrô eu cogitei entrar para conhecer, até a CBN noticiar hoje de manhã que eu trem descarrilhou no meio do túnel e cinco tiazinhas passaram mal e outros tantos tiveram pânico. Aqui no DF só é possível comprar imóveis nas cidades satélite atendidas pelo metrô. A conclusão é que,enquanto aqui estiver, pagarei aluguel escorchante dentro do plano piloto.
Mas voltando ao seu texto, e ao tópico principal, os Nerds, primeiro quero repassar um presente. Se fosse de casamento, seria o fim do mundo. Mas como é presente espiritual, vale. O melhor elogio que já tive no meu Blog foi de um primo que escreveu: “Delícia de texto.” Só isso. Eu (e acho que vc também) estou cagando para quem acha que eu sou um gênio, para quem acha que eu sou um imbecil, para quem concorda ou discorda comigo. O maior prazer de quem escreve ou cria qualquer merda é uma risada, uma lágrima, ou qualquer emoção que faça o tempo passar mais rápido e suave. Destarte, repaço o elogio a você desta vez (o que não faria nos últimos, que me pareceram meio “corridos”).
Quanto aos nerds, puta merda, poderia escrever horas e horas aqui. Não quero fazer do seu blog o meu, embora o senhor seja um dos meus maiores inspiradores. Vou me abster. E guardar a pulga atrás da orelha para a minha própria postagem. Um egoísmo filho da puta. Mas você compreenderá.
Só não posso deixar de lembrar que, neste tema, faltou seu parecer sobre o ícone NERD da aualidade, a séria THE BIG BANG THEORY.
Sem mais meu brother.
Saudações são jorgenses e… sempre
é nóis.
Iatã
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